Um dia consegui

Eu queria ser alguém. Todos os dias acordava e pensava que tinha que fazer alguma coisa nova, alguma coisa que me levasse a algum sítio novo, a conhecer novas pessoas, a ter novas experiências. Mas nunca consegui. Um dia consegui.



Quando decidi tirar o curso de Enfermagem, na Universidade do Porto, optei por ficar perto de casa, com os meus pais, os meus amigos, era uma opção pela minha cidade. Mas os exames nacionais não correram assim tão bem como eu quis. A questão seguinte foi: Universidade Pública ou Universidade Privada? As opções da universidade pública levavam-me a ir para o Algarve ou para Trás-os-Montes. Acabei por ficar numa Universidade Privada, aqui no Porto. Se foi a melhor opção? Não sei, sei que hoje em dia, olho para os anos passados e sei que o destino seria este.
Depois de 5 anos de estudos, noites em claro, estágios cansativos, cheguei a ver gente a morrer, tudo compensa o que vivo agora. Mas não foi fácil. No fim do curso, a questão seguinte era o mercado de trabalho, e ai, também não foi um mar de rosas. Mas se para entrar num curso podia escolher, neste caso nem tinha escolha possível. Não havia trabalho. Nesse ano em que esperei por um trabalho na minha área a melhor proposta que tive foi a de um Centro de Saúde no Alentejo, no Crato. Não aceitei, o medo de ir para o desconhecido apoderou-se de mim. Mas esse mesmo Centro de Saúde fechou depois de 2 meses da minha entrevista.
A verdade é que sair para o desconhecido sempre me deu pavor. E nunca pensei que fizesse o que faço hoje. A oportunidade apareceu e não sei como disse sim. Se vos disser de onde escrevo será que acreditam?
SO-MÁ-LI-A.
Somália. Muitos dos que vão ler nem sabem onde este país fica. Nem eu sabia bem. Este é um dos países mais pobres do mundo e tem poucos recursos naturais. A economia do país reduz-se quase em exclusivo a agricultura. Mas este país tem um cultura imensa, imensos monumentos devido a importância que teve na antiguidade. 
É verdade, eu não larguei a minha cidade para ir para a Universidade, nem para ir trabalhar, para outra zona do meu país, mas quando me disseram que a Somália precisava de enfermeiros devido as constantes Guerras Civis, que matavam milhares de crianças, o meu impulso viajar até a Somália. Agora, estou aqui, feliz, como nunca estive antes. Ajudo estas crianças, num país onde a taxa de mortalidade infantil é das mais altas do mundo inteiro, a serem vacinadas,a terem algo para comer.
Se sou feliz? Muito. Tenho pouco, mas o pouco que tenho chega-me para que o meu coração esteja iluminado.
Posso não mudar o mundo, mas o mundo já me mudou a mim.

Comentários

  1. Passando para agradecer o carinho da visita e dizer que este ano estaremos aqui, sempre a prestigiar o trabalho dos amigos!!!

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  2. "Encontrei-te" por acaso e já aqui estou há algum tempo a ler e a reler
    este texto...Já chorei, já sorri e resta -me agradecer por partilhares
    algo de tão maravilhoso na tua vida .
    Gostei imenso de "viajar" nas tuas palavras e dou-te os parabéns, pela
    coragem de deixares o teu país, para ajudar os outros.

    ler este texto foi sem duvida a melhor parte do meu dia ...

    Um bom ano e tudo do melhor para ti.


    Isabella

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