Uma História de Amor

Descobri hoje que era adoptado. Fiquei sem saber o que fazer, mas os meus pais não desconfiam de nada. Agi naturalmente quando descobri. Eles decidiram dizer-me hoje, mas ainda não me explicaram porque. Também não perguntei, não me interessa. Só sei que andei 32 anos enganado, a minha vida parece que caiu sem eu me aperceber. Parece que perdi tudo o que tinha.



Agora estou mais calmo, tudo parece muito claro. Os meus pais foram quem me criaram e não me interessa saber quem serão os outros, os que me deixaram. Mas sou curioso e tinha que saber mais. Os meus pais vieram ao meu quarto e acabaram por contar toda a história. 
Se pensam que me encontraram no caixote do lixo estão enganados, assim como também não andava perdido na floresta e estes meus pais encontraram-me. O que aconteceu eu vou contar agora.
Tinha 3 anos quando fui trazido de Angola pelo meu pai. Sim, eu nem português sou. Aqueles a quem deveria chamar pais eram portugueses emigrados em Angola, tinham ido para lá a procura de melhores condições de vida, e encontraram até que foram enganados. Aquela a quem deveria chamar mãe trabalhava como secretária numa empresa e o patrão pediu-lhe que assinasse uns documentos, segundo o que me contaram eram uns documentos para abrirem um crédito, que não podia ser em nome da empresa, então foi em nome dela, para que assim não ligasse o empréstimo à empresa. Ela não desconfiou de nada, mas a verdade é que passado dois meses ela foi despedida porque estava grávida. Alguns meses depois começaram a receber notificações de pagamentos em atraso que tinham que pagar de um crédito que aquela a quem deveria chamar mãe tinha feito. Eles ficaram desesperados, não tinham mais dinheiro, o banco tirou tudo, era só ele, ela e eu na barriga dela. Eles vaguearam vários dias por Maputo até que entraram num cruzeiro clandestinamente. Ai eles conheceram os meus pais, que na sua bondade nunca disseram nada e tinham convidado esse casal que são os meus pais verdadeiros a passar uns dias aqui em Chaves, mas pelo que soube hoje, isso nunca chegou a acontecer. No meio do cruzeiro aquela a quem deveria chamar mãe deu a luz, sai eu, o Ricardo, que hoje estou aqui a contar-vos esta história. Ela não teve um parto fácil, foi sem ajudas, sem médicos, sem condições. Enquanto escrevo isto parece que estou a ler uma novela. Mas é verdade, ela deu a luz, tudo ficou bem, a minha mãe ajudou e foi a primeira a ter-me nos braços. Aqueles a quem eu deveria chamar pais pediram que me levassem com eles durante o cruzeiro, para ter as melhores condições possíveis. A maior hesitação de todas dos meus pais foi deixar aquele casal ali. Aquela a quem eu deveria chamar mãe estava feliz por eu estar em boas mãos, mas os meus pais ficaram inquietos, e todos os dias iam ter com eles, levavam comida, tentavam ajudar como podiam, sem nunca dar nas vistas, mas infelizmente em 1980 nem tudo era como deveria ser, aquela a quem eu deveria chamar mãe acabou por falecer no navio e os meus pais, juntamente com aquele a quem eu deveria chamar pai, tiveram que a atirar borda fora, foi algures entre a Serra Leoa e a Guiné Bissau. Foi, pelo que me contaram, momentos tristes. Aquele a quem eu deveria chamar pai fez prometer aos meus pais que cuidariam de mim para sempre, como se fosse filho deles, e atirou-se ao mar. Foi atrás da mulher da sua vida porque sabia que não teria coragem, nem de contar esta história, nem de tomar conta de um filho que lhe iria lembrar a mulher que sempre amou.

Comentários

  1. triste o inicio dessa hist. ..!
    que bom que teve ao meos um final feliz,
    pois a inocente criança viveu ecresceu em um
    lar feliz!!!! ufa!!

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  2. Que história triste.
    Mas os teus pais asseguraram-se que ficavas bem e isso é uma prova de amor.

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  3. Minha cunhada também descobriu, aos 43 anos, que era adotada. Hoje ela está mais tranquila e serena. No começo tudo virou de cabeça para baixo, mas como ela tem duas filhas lindas que precisam que ela continue a ser forte e a cuidar delas ela compreendeu que o que está feito está. É muito complicado essa coisa de adoção principalmente quando se escolhe esconder os fatos. Quem é adotado fica numa situação de estar fora da realidade, mas também não podemos esquecer que a adoção é um ato de AMOR...
    Um grande abraço
    A VIDA carrega seus MISTÉRIOS e temos que saber DESVENDÁ-LOS...

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  4. Sempre belas histórias.

    Tenho um selo para ti no meu blog, se quiseres passa por lá
    se não gostares destas coisas, eu entendo:)

    http://abracarotempo.blogspot.pt/

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