Decisões


Lembro-me como se fosse hoje daquela noite inesquecível de passagem de ano.O céu com estrelas pontilhadas e a lua em todo o seu esplendor. Decidimos entregar os nossos corpos um ao outro como prova de amor. Lembro-me das juras de amor eterno sussurradas no meu ouvido, e da promessa de que nada jamais nos separaria. Pior de tudo, ainda, é lembrar da fatídica tarde de quarta feira, dois meses depois, após um longo beijo e um caloroso abraço, onde nos perguntamos; "O que tens de tão importante para me dizer?".



Por mais que eu tivesse ensaiado uma centena de vezes diante do espelho. Deixei-o falar primeiro. Quem sabe fosse uma coisa sem importância que me fizesse sorrir e  me deixasse mais relaxada para lhe contar o motivo de tamanha urgência do meu bilhete. 
Ele ia estudar para umas das Universidades mais importantes do país, morar a 500 Km de mim. Tinha que vender o carro para pagar os primeiros meses de aluguer de casa, mas prometeu-me visitar uma ves por mês. "E o que acontecera com aquela promessa de nunca nos separarmos?", perguntei. Diante daquela oportunidade ela parecia-me muito vaga... 
Eu tinha duas palavras que poria todo o seu projecto de vida abaixo: "Estou grávida!". Era o que lhe tinha que dizer. Como podia dizer que abandonasse tudo por minha causa, já que fui imprudente? Por que não tomei a iniciativa de cuidar de mim pelo menos? Será que eu poderia viver eternamente ouvindo que se eu fosse mais cuidadosa hoje ele seria um doutor? O que dizer ao meu pai que não suportaria a ideia de ter uma mãe solteira dentro de casa, caso ele preferisse a faculdade? O meu coração partiu-se ao pensar nessa hipótese e eu quase desmaiei.
Mas outra notícia, mais cruel me foi dada pelo meu irmão. O meu pai teve um enfarte e lutava para sobreviver no hospital. Todos estavam lá. Inclusive o patrão, e melhor amigo, dele: Marcos.

Marco foi alguém que abriu mão do seu maior amor pelo simples facto de não ter coragem de se declarar. Não imagino que ele estivesse a espera da morte do meu pai para isso agora. Afinal com o tempo ele viu a possibilidade de transferir essa paixão para a filha do amigo, e às vezes ate brincava dizendo: "Quando a Nanda crescer vou me casar com ela!". O meu pai ria, mas não duvido que prefira o melhor amigo como pretendente a um  adolescente de dezanove anos, sem juízo. Por isso a resposta era sempre a mesma: "Se ela quiser...
Para minha surpresa fui abandonada na recepção pelo amor da minha vida, no mais drástico momento da situação. Segundo ele tinha “coisas mais importantes” para fazer e tinha a convicção de que o meu pai se iria restabelecer rapidamente.
Assim que ele pudesse entraria em contacto comigo. Mas não entrou, em nenhum dos quinze dias que passei na angustia pelo meu pai. Um mero bilhete foi me entregue pela sua mãe dizendo: "Preciso de um tempo". Não suportei a raiva. Despejei sem controle toda a minha magoa na mãe dele, contei nosso segredo a ela decidiu levar-me ao medico para "cuidar da minha gravidez", enquanto a minha mãe estava no hospital com o meu pai. Lembro do terror se espalhando pelo meu corpo quando percebi que não era num um hospital que ela iria me levar e sim a uma clínica onde as garotas presentes ali tinham unicamente um propósito, "livrar-se do problema que contraíram". Lembro-me da fuga desesperada pela rua e do quase atropelamento. Do medo que senti escondida entre o lixo até que o amigo do meu pai aparecer para me resgatar. Sim, ele era a única pessoa ao qual eu poderia pedir socorro no momento. Lembro-me da sua expressão de revolta quando lhe contei a minha situação, ele queria chamar a policia. Mas não deixei... Estava sozinha, não acredito que no auge dos meus dezasseis pudesse criar uma criança assim. Além do Marcos não havia mais ninguém com que eu pudesse desabafar, até por que minha mãe tinha preocupações maiores, meu pai precisava de uma cirurgia muito cara, nós não tínhamos dinheiro para isso, não havia tempo para esperar pelos planos de saúde do governo. Ai recebi uma proposta: "Se casares comigo eu pago a cirurgia do teu pai e assumo essa criança como se fosse minha." Não sei sinceramente o que é mais absurdo: passar a humilhação de ser abandonada ou ser trocada como mercadoria. 
Como é que uma pessoa vê isto quando está de fora? Não julguei ninguém, não me cabe a mim fazê lo. Às quatro horas da tarde do mesmo dia o meu pai foi operado, contamos a minha mãe, apenas, que nos iamos casar. Não acredito que o Marcos deixasse o meu pai morrer por causa de uma conta no hospital, nem que levasse umas duas vidas para pagar ele emprestaria o dinheiro. Mas duas vidas é muito tempo, preferi agilizar as coisas. Um mês depois casei na principal igreja da cidade. Não pensem que não tentei contactar o pai do meu filho. Foram telefonemas ignorados e cartas devolvidas sem ao menos serem lidas. Marcos concordou que se ele aceitasse o filho desistiria de mim. Mais isso não aconteceu. Num breve deliro, imaginei-o como o príncipe que aparece num cavalo branco no meio da cerimónia para impedir que o cordeiro fosse imolado... Mais isso não aconteceu... Agora doze anos depois, pergunto-me: "Será que sou feliz? Tomei as decisões certas?" . Tenho todo o bem material que desejar: jóias, roupas, perfumes. São poucos os lugares no mundo que não conheço, já que Marcos prefere viajar nas férias. O meu filho estuda numa escola particular, e até acho que é mimado demais por aquele a quem chama de pai. Mas confesso, não é fácil conviver com um homem quase trinta anos mais velho. O ciúme impera. Sou como uma boneca de porcelana aos seus olhos que precisa ser protegida de tudo e de todos. 
Agora o meu filhos fez um exame e tenho que tomar a pior decisão de todas... Ele esta doente e precisa de um transplante de medula. O seu sangue é raro e para se salvar tenho que contar a verdade sobre a sua paternidade. Descobri há pouco tempo que ele nunca recebeu as minhas cartas, a sua mãe envenenou-o  contra mim, dizendo que me vendi por dinheiro a um velho. Numa coisa ela tem razão, desisti fácil do meu amor.O que fazer agora? Seria justo trazer de volta o passado para o meio de nossas vidas? Eu mereceria o perdão por ter sido tão covarde? Ou mantenho o meu filho a sofrer, a espera de alguém compatível? Deixem lembrar que não é cem por cento fiável que seu pai verdadeiro possa-lhe doar o bem mais precioso de sua vida. A mãe dele tanto como o pai já faleceram e ele era filho único. Também tenho medo que o meu coração venha resgatar aquele amor, deixado para trás, de volta ao meu dia a dia...



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